Condomínios sem caixa para reajuste da água
Leonardo Leão | A TARDE*
O anúncio, feito na última quinta-feira, de que os serviços de água e esgoto da Embasa terão tarifas, em média, 14,33% mais caras, a partir de maio, deixou os administradores de condomínios apreensivos. Acontece que, além do impacto financeiro, a medida deverá aumentar os níveis de inadimplência e o número de conflitos entre vizinhos.
“Poucos condomínios têm dinheiro em caixa para absorver o reajuste. A maioria fará o repasse integral nas taxas pagas pelos moradores”, avaliou Sérgio Sampaio, presidente do Sindicato da Habitação e dos Condomínios da Bahia (Secovi), destacando que a medida deve ampliar a inadimplência. “Cada vez mais, aumenta o número de pessoas que, simplesmente, se recusam a pagar as taxas de condomínio, e as ações judiciais contra essas pessoas demoram muito”, disse.
Em Salvador, segundo a Associação Baiana das Administradoras de Imóveis e Imobiliárias (Abai), 8% dos imóveis em condomínios estavam inadimplentes em 2008. Como a conta da Embasa representa a maior parcela dos gastos, a previsão de Sampaio deve se confirmar. Outros fatores que reforçam esta expectativa são o aumento do salário mínimo (6,39%) ocorrido em fevereiro e o provável reajuste dos salários dos funcionários de condomínios, cuja data-base será em maio. “A alta do mínimo conseguimos absorver, mas agora vai ser impossível”, afirmou Eduardo Rego, administrador de uma empresa que gerencia 40 condomínios.
BRIGA – Além de transtornos financeiros, a inadimplência gera atritos entre vizinhos. Reinaldo Torres, morador do bairro de Brotas, conta que no edifício em
que mora “tanta gente deixou de pagar o condomínio que a Embasa chegou a cortar a água. ‘Rolou’ até briga entre os que pagavam e os devedores”, afirmou. Uma saída é a medição do consumo de cada unidade separadamente, com o uso de hidrômetros individuais. Assim, a conta de água não fica sob responsabilidade do condomínio, que faz o rateio do valor entre as unidades, e cada morador assume suas dívidas, como acontece com telefone e energia elétrica.
A medição individual acabaria também com outra questão: o fato de, no rateio, a conta ser dividida igualmente por todas as unidades, com uma pessoa que
mora sozinha pagando o mesmo que um pai de família, que divide a casa com esposa e filhos. A dificuldade, no entanto, está nos custos para a mudança. Pedro
Fernandes, síndico de um edifício na avenida Paralela, disse que um orçamento feito recentemente ficou em R$ 80 mil.
Preço muito alto, mesmo para ser dividido entre os 72 apartamentos do prédio. “Contudo, diante desse reajuste da água, que representa 70% dos gastos do condomínio, vamos retomar o assunto e avaliar as vantagens a longo prazo”, afirmou.
VANTAGENS – Ramon Silva, administrador de um prédio no Itaigara, conta que os hidrômetros individuais foram instalados pela construtora antes da entrega
das chaves em agosto de 2008. Tal iniciativa evitou possíveis problemas, já que dos 72 apartamentos, apenas 36 estão ocupados e os proprietários dos imóveis
vazios não gostariam de arcar com um rateio da conta. “Se não fosse a medição individual, cada morador pagaria R$ 100 a mais de condomínio”, disse.
Em outro prédio, na Pituba, cuja inadimplência chega a 20%, os moradores pagaram as obras de adequação do sistema hidráulico e agora aguardam o fim dos procedimentos burocráticos para a mudança junto à Embasa. “Estou fazendo tudo para a cobrança individual já estar funcionando antes do reajuste”, afirmou
o síndico Jailton de Souza. Cara para os prédios antigos, a medição individual será comum em praticamente todos os novos edifícios. Dados da Associação
de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi) indicam que 80% dos empreendimentos com apartamentos de valor acima de R$ 70 mil já contam com hidrômetros independentes.
Abaixo desse valor são apenas 30%, mas o plano habitacional anunciado pelo governo federal recentemente prevê que os equipamentos também sejam instalados nos imóveis voltados para as pessoas com renda entre cinco e dez salários mínimos.
*Colaborou Thaís Rocha